Ele gemeu no meu ouvido. Mais forte e mais forte
Eu olhava pro teto. Com tédio e tristeza
Senti ele dar aquele último gemido, o mais profundo e não menos estranho e depois saiu de cima de mim, e querendo ou não querendo bateu seu joelho na minha coxa. Além de tédio e tristeza, tem dor.
Observo enquanto ele fuma. Queria fumar também, mas isso não é coisa de dama, era o que minha mãe dizia, sempre. Ela já morreu, coitada, como dama. Durante exatos 4 segundos penso em pedir um cigarro.
Depois lembro que ele também acha que fumar não coisa de dama.
Hoje foi bom, né, amor?
Por dentro eu rio, aquela risada amarga de quem perdeu a melhor época da vida. Só quem perdeu essa época sabe como é.
Foi bom.
Ele sorri orgulhoso por fora, como só um homem pode sorri.
Volto a olhar pro teto. Mais tédio e mais tristeza.
Levanto e vou pro banheiro. E mais uma vez me pergunto o porque de eu me sujar dessa maneira.
Passo a mão entre as pernas e sinto nada.
Eu sempre fui dama? Ou me tornei dama para meu marido?
Talvez fosse a hora de terminar com esse casamento.
Quero fumar e beber e trepar. Fazer tudo que uma dama não deve fazer jamais.
Quero ficar em baixo do chuveiro até o mundo explodir e eu não precisar voltar e contar para ele o meu desejo.
Desligo o chuveiro e vou pro quarto colocar outra camisola, uma limpa e que não tenha esse cheiro fétido de sexo.
Quero falar.
E olho pra ele na cama, com o cigarro no final e um sorriso que me dá ânsia. Ainda sorrindo ele apaga o cigarro enquanto eu me aproximo pronta pra falar tudo que eu sempre guardei. Todos aqueles defeitos dele que me irritam e todos meus sonhos que destruí por nada. Até que vem o medo. O medo. Aquele que todos sentem em algum momento da vida, medo de ficar só e não ter defeitos de outros pra reclamar.
Vamos fazer de novo.
E ele sorri ainda mais. Um sorriso que só um homem sabe dar. Com um orgulho de macho que é igual em todos. E vou continuar a ser dama. E, sem prazer algum, só com tédio e tristeza, e talvez dor.
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